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O que pretende este breve curso sobre mecânica?

Demoramos muito para colocar esta página ar. Mas tudo tem seu tempo.
Este longo tempo foi precioso para pensar e repensar inúmeras vezes como encaminhar um curso sobre mecânica e manutenção de bicicletas.
A Escola de Bicicleta existe para "ensinar a pescar e não para entregar o peixe". Tempo, tempo, tempo...; o tempo nos fez ver que a diferença entre a maioria dos que tentam fazer mecânica e os que fazem mecânica para valer está na postura, princípios, conceitos e procedimentos.
Queremos aqui dar o "b a ba" para ajudar nossos leitores a pensar a mecânica. O resultado final deve ser sempre "prazer", que podemos traduzir em qualidade, segurança e conforto no trabalho e no pedalar a bicicleta.

Mecânica é uma questão de estado de espírito.

Boa parte dos mecânicos simplesmente apertam e soltam parafusos e com isto dão um "jeitinho" na bicicleta. A maioria nunca viu um manual da peça ou da bicicleta, não sabe que há diferença de medidas entre simples chaves de fenda, que há um torque (medida de pressão) correto, e sequer entendem porque tem que entregar o trabalho final limpo, perfeito e bem apresentado. Quase todos estão lá porque tem que ganhar o pão de cada dia e ponto.

Há vários tipos de mecânico, o profissional, amador, o eu-mecânico, o quebra galho, mas há um mesmo espírito que os une: fazer as coisas funcionarem bem.

Não importa se você quer abrir uma oficina ou bicicletaria, ou ainda se quer simplesmente ter sua própria bicicleta sempre perfeita, dê um passo por vez, com calma. O resultado sempre chega.
 

fazer mecânica
 
É ótimo ter conhecimento sobre mecânica até porque acaba refinando a forma de conduzir a própria bicicleta. A máxima "ciclismo é a arte da suavidade", que é repetida exaustivamente pela Escola de Bicicleta, só pode ser alcançada quando o ciclista tem um conhecimento completo do processo, o que inclui conhecer a própria bicicleta.

A primeira atitude para entender o que é mecânica de bicicleta é ter uma bicicleta minimamente decente. Não desejo para ninguém as surras que tomei nos meus primeiros anos de ciclista e pseudo-mecânico. Apanhei porque me recusei a ouvir gente com experiência que sempre me dizia que aquela bicicleta não valia nada. Quando tive minha primeira bicicleta de qualidade entendi que eu tinha capacidade para fazer mecânica e que pseudo mesmo era aquela bicicleta "bonitinha, mas ordinária", como diria Nelson Rodrigues.

Quer aprender mecânica? Então tenha em mãos uma bicicleta que mereça ser chamada de bicicleta.

Fazer mecânica é possível para qualquer um, basta querer. O mais importante é desmistificar e acalmar-se para entender como funciona. Procedimento é absolutamente tudo.
Em mecânica não existe mágica, existe um procedimento lógico que normalmente é simples. Depois de um pouco de prática, controlada a ansiedade, é possível aplicar a mesma forma de pensar e agir em toda e qualquer coisa que se vá consertar. Se ainda tiver dúvidas olhe o manual ou desenho técnico do equipamento, disponíveis na Internet.

Tenha claro que praticamente tudo no nosso dia a dia é criado para ser manipulado por gente como você e não por astronautas, cientistas, marcianos e lunáticos. Principalmente no ramo das bicicletas a coisa toda é muito simples pois os fabricantes têm que levar em consideração o nível geral do mercado, que é bem simples.

Bicicleta é simples, feita de poucas peças e componentes, o que faz sua mecânica também simples.

O que interessa mesmo em mecânica é o procedimento correto e o melhor resultado possível, e porque não a perfeição. Não importa muito saber todos os nomes de peças, ferramentas, componentes... Interessa realizar o correto e o correto é simples.

Como fazer? Olhe, toque, sinta, olhe de novo, teste, descubra as diferenças por si só, cometa erros sem cometer crimes, aprenda a acertar sem ter medo de errar. Pergunte aos mais experientes, crie um grupo de conhecidos ao qual possa recorrer, perguntar, trocar informação com confiança. Permita-se "crescer".

Tudo que temos em volta, da bicicleta à geladeira, da televisão ao computador, tem uma mecânica envolvida que foi construída em cima de um procedimento padrão, uma forma de pensar as ações com uma seqüência lógica, um procedimento sensato. Talvez o mecânico de carro ou de geladeira tenha a resposta correta pois tudo funciona sobre a mesma base lógica.

Sempre há o que aprender. São pouquíssimos os que de fato tem conhecimento para valer e a maioria destes chegou lá com o tempo, com a experiência. Há os que nasceram com o dom, o que é raro e não deve ser tomado como exemplo, mas como referência. A maioria dos mecânicos é um simples mortal, como nós.

É muito importante reforçar que habilidade é algo que se treina e que a qualidade do mecânico aparece pelo seu esforço diário e constante na busca da perfeição. Aliás, como tudo nesta vida. É preferível um mecânico menos habilidoso, mas sério, disciplinado, consciente e com resultados positivos, do que um mecânico que sabe que é bom, mas acredita que isto baste e de vez em quando cometa alguma besteira.

Saiba reconhecer seus limites. Vá até onde sua capacidade permite ir no momento. Um passo por vez.

Enfim, fazer mecânica de qualidade é sobre tudo uma questão de postura.
 

ferramenta
 
Corpo, a ferramenta básica

O uso do próprio corpo é a primeira ferramenta que se usa. Desde quando somos bebês manuseamos tudo para descobrir como funciona. Vários animais usam o corpo como ferramenta, como o sabiá que usa o bico para bater a semente contra pedras e assim quebrar a casca e comer seu núcleo.

A melhor ferramenta que existe é nosso próprio corpo. Conseguir olhar e ver, tocar e sentir, parar e pensar, é ferramenta imprescindível para realizar um trabalho de mecânica de qualidade.
Quanto melhor o mecânico, mais ele usa a cabeça e o corpo.

Sempre é possível treinar corpo e mente e melhorar as qualidades de sensibilidade, força, discernimento e lógica. Mecânica é uma ótima oportunidade para se refinar. Isto é possível através de pequenos atos de disciplina como acostumar-se a não tocar na peça antes de olhá-la por todos ângulos, parar para pensar no sistema... Há muitos caminhos para o treinamento, mas nenhum melhor que dar um passo por vez procurando sempre a melhor forma de realizar a tarefa. Repetição à exaustão ensina corpo e mente a proceder corretamente. Mas sempre um passo seguro por vez!

Quanto mais disciplinado é o mecânico melhor. Disciplina é uma ferramenta valiosíssima, talvez a mais valiosa de todas. Só através da disciplina se chega à liberdade, a plena capacidade de ação e ao melhor resultado.
 

a utilização da ferramenta
 
Ferramentas devem funcionar como uma extensão do corpo humano. Normalmente são acionadas seguras pelos dedos ou com a mão inteira. Muito poucos percebem que dedos, mão, braço são um todo contínuo e funcionam como um sistema. Quando você pega algo com a ponta dos dedos a ação começa na cabeça, passa por músculos, nervos e outros mais, e termina na ação do dedo.

É necessário saber usar corretamente a ferramenta e para tanto é necessário manuseá-la. Há uma posição correta para que dedos, mão, pulso, antebraço e braço e até o tronco executem o trabalho com menor esforço e maior sensibilidade e este é um segredo para ter sempre qualquer trabalho bem realizado.

Cada grupo ósseo / articular / muscular tem uma posição que é natural, ou seja, um grau de articulação, de tensão e extensão ideal. Como exemplo olhe para sua mão. Ela mantém um alinhamento centrado com seu antebraço. Toda vez que você torce muito sua mão para cima, para baixo, ou para os lados ela perde força e sensibilidade. Então a melhor forma de trabalhar com a mão é não exagerar seu ângulo de torção. No caso do cotovelo a posição natural não é reta, mas um pouco angulada, e provavelmente a maior força do braço se dá quando o cotovelo está próximo à 90 graus. É assim com todo nosso corpo.

Descobrir o próprio corpo e usá-lo da melhor maneira possível é o primeiro passo para se transformar em um bom ciclista, portanto um bom mecânico.

É preciso prestar atenção em si e perceber que para trabalhar com pequenos parafusos ou porcas o ideal é usar só a ponta dos dedos, procurando descobrir neles onde está a área de maior sensibilidade, ou para fazer muita força é melhor conhecer em que posição todos músculos terão sua melhor condição.
 

ferramentas corretas
 
As bicicletas atuais usam umas poucas ferramentas normais, praticamente só em milímetros, mais um conjunto de ferramentas desenhadas para uso específico em algumas peças e componentes como relação, movimento central, niples, eixos, suspensão e outros. É necessário não mais que umas 50 ferramentas, entre comuns e especiais, para montar uma oficina onde se consiga trabalhar em quase toda bicicleta. É possível começar com bem menos ferramentas e dependendo do tipo de bicicleta que se vá trabalhar, principalmente as mais simples, as ferramentas especiais são praticamente dispensáveis.

A recomendação que fazemos é para que na hora da compra das ferramentas a opção seja pelas de melhor qualidade. Ferramenta é um bem durável, não deve ser pensada como descartável. A diferença de rendimento do trabalho com uma ferramenta de qualidade e uma comum é impressionante; a diminuição de custos a médio e longo prazo também.

Usando a ferramenta correta, quanta força é necessária?

Há uma medida de pressão (torque - força de torção) específica para cada porca e parafuso que é determinada pelo projeto da peça. Qualquer peça ou componente de qualidade vem com manual de proprietário e neste documento há a medida exata de pressão a ser aplicada. Praticamente todas as bicicletas, com exceção das "topo de linha" e as profissionais, permitem um nível de tolerância que dispensa o uso de torquímetro (ferramenta que dá o torque, pressão, exato.)

Com o treinamento a maioria consegue chegar próximo ao torque ideal de cada porca ou parafuso. O que ajuda ai é o projeto das ferramentas que tem no seu tamanho a alavanca ideal para que a aplicação da força média de um homem comum chegue ao torque correto. O resto é prática e bom senso do mecânico.

Importante:
1. Peças e componentes de baixa qualidade espanam ou deformam com certa facilidade, até mesmo quando recebem a pressão ideal para o bom funcionamento da peça.
2. Quanto melhor a qualidade do material maior será a tolerância a variações de pressão
3. Se não tiver treinamento específico evite trabalhar com bicicletas profissionais que empregam materiais de alta tecnologia, como fibra de carbono, titânio ou mesmo alguns tipos de alumínio.
 

limpeza e preservação ambiental
 
A questão da limpeza é crucial para a execução de uma boa mecânica, não só para a própria bicicleta, mas para o próprio mecânico, sua saúde, de sua família e seu meio ambiente.

Bicicletas são normalmente sujas.
Quando se tira a sujeira da bicicleta ela vai parar em outro lugar. A terra pode ser devolvida para a terra, mas graxas, óleos, solventes e desengraxantes não podem ser jogados fora em qualquer local porque contaminam muito o meio ambiente. Eles têm que receber destinação própria. Muitas cidades já têm coleta seletiva para este tipo de lixo, mas se a sua ainda não tem procure informação para saber o que fazer com o seu lixo. Dê exemplo.

A maioria dos produtos de limpeza (e não só eles) exalam elementos que fazem mal ao corpo humano. Um local apropriado, bastante ventilado, para a limpeza geral da bicicleta é uma medida de previdência.
 

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